Clima de fim de década

Apesar de alguns acreditarem que a década só termina no fim de 2010, daqui a alguns anos, incluiremos o próximo ano na década de 10, assim como incluímos 1960 na década de 60, 1970 na década de 70. Pois bem, consideremos a virada de 2009 para 2010 como uma virada de década, e consideremos também o ano 2000 na mesma década de 2009. Assim, fica um clima de fim de década, pedindo uma retrospectiva dos anos 2000. Façamos uma espécie de melhores da década.

Alguns momentos foram inesquecíveis nestes anos, como o carro humano da Unidos da Tijuca e os títulos de Mangueira e Vila Isabel.

Com os sambas enredo, selecionaremos três, cientes que muitas obras memoráveis não estão listadas.

Melhores sambas enredo da década:

  • Estação Primeira de Mangueira 2002 - Brazil com 'Z' e Brasil com 'S'
  • Beija-Flor de Nilópolis 2007 - Áfricas
  • Acadêmicos do Salgueiro 2007 - Candaces

Os desfiles mais belos também foram memorados nesta lista.

Melhores desfiles da década:

  • Estação Primeira de Mangueira 2002 - Brazil com 'Z' e Brasil com 'S'
  • Beija-Flor de Nilópolis 2007 - Áfricas
  • Unidos de Vila Isabel 2009 - Theatro Municipal
E na presente década (a partir de 2004) foi permitido às escolas utilizarem sambas de outros carnavais, com isso temos as três melhores reedições.

Melhores reedições da década:

  • Império Serrano 2004 - Aquarela Brasileira
  • Unidos do Viradouro 2004 - Festa do Círio de Nazaré
  • Império Serrano 2009 - A Lenda das Sereias
Para um desfile memorável, serão necessários carros que deslumbrem o publico, para isso temos também os melhores carros da década.

Melhores carros alegóricos da década:

  • Unidos da Tijuca 2004 - Carro DNA
  • Portela 2008 - Carro Viva a Vida
  • Unidos de Vila Isabel 2009 - Carro Lago dos Cisnes


Ainda temos os momentos que arrepiam a pele e fazem a perna tremer.

Momentos memoráveis da década:

  • Acadêmicos do Grande Rio 2001 - Astronauta sobrevoando a Sapucaí
  • Unidos da Tijuca 2004 - Carro DNA
  • Unidos de Vila Isabel 2006 - Desfile impecável e título
E as escolas que contaram sua própria história na Sapucaí?

Melhores auto-homenagens da década:

  • Unidos da Ponte 2001 - Em Azul e Branco Meu Coraçã se Deixou Levar
  • Acadêmicos do Salgueiro 2003 - Cinquentenário da escola
  • Imperatriz Leopoldinense 2009 - Cinquentenário da escola
Dentre tantas outras homenagens que podemos direcionar às escolas que fizeram desta uma bela década para o carnaval carioca. Ficaremos por aqui, daqui a pouco já é outra década. Nosso Sarau continuará na década seguinte.

Reparação e o 'Carnaval do Povão'

Primeiramente, o Sarau do Skindô se desculpa com seus participantes e amigos pelo período de reparos técnicos, o que tornou inviáveis os artigos semanais. O Sarau do Skindô mantém o compromisso de duas postagens semanais, com conteúdo sério e saudosista, sempre visando comparar o carnaval atual com o de outrora.

Para marcar a volta do conteúdo exclusivo do Sarau do Skindô, cabe uma lembrança ao 'Carnaval do Povão' ou Grupo de Acesso, que em 2010 trará uma das melhores safras de sambas dos últimos tempos, podendo até ser comparada ao Grupo Especial e, para alguns, superando-o.

A começar pelas gigantes do Acesso, Estácio de Sá e Império Serrano que trazem uma viagem no tempo através da boemia carioca. O velho Estácio conta a sua própria história na Sapucaí e não pode nunca deixar de estar entre as concorrentes ao título. Já na Serrinha o assunto é João do Rio no enredo 'João das Ruas do Rio' com um dos melhores (talvez o melhor) sambas do ano.

São Jorge (Ogum) no ensaio técnico do Império na Sapucaí

Seguindo a formula de Madureira e São Carlos, a Acadêmicos de Santa Cruz canta o único samba que pode ser comparado com o do Império no belo enredo 'Nos Passos do Compasso', e firma-se como outra concorrente ao título, trazendo na sua cola a Paraíso do Tuiuti, com Eneida, o 'Choque de Ordem' da São Clemente, os 'loucos' da Acadêmicos do Cubango (inclui-se o louco Milton Cunha) e a 'Suprema Jinga' da Império da Tijuca.

Correndo por fora, seguem Unidos de Padre Miguel com o aço, Renascer com Aquaticopólis, Rocinha e o Reino das Ykamiabas, Pilares no velho samba 'E Por Falar em Saudade' e Inocentes, com Preto Jóia a 'Água Pra Prover a Vida', porém não descartados como fortes candidatas ao acesso.

No último ano, a vitória da Estácio de Sá era dada como certa, tendo como concorrente mais próxima a Acadêmicos de Santa Cruz. E no que deu? União da Ilha campeã!

Os grupos de acesso foram valorizados e estão cada vez mais concorridos. Vale esperar e acompanhar a briga de 2010 por um lugar no Especial. À todos os boêmios do Sarau, um Feliz Natal.

O feitiço da Vila

Neste domingo, matei a saudade. Acho que finalmente entoei meu grito de carnaval de maneira digna. Até encontrei amigos do nosso Sarau por lá. Estive no baile do Bloco Saco do Noel, de Vila Isabel, claro. O baile era à fantasia, com confete e serpentina. É um desses lugares que valem o ingresso.


Os compositores Rafael Zimmermann, Guilherme Salgueiro e Márcio Hilário apresentaram o samba concorrente que foi à final na Unidos de Vila Isabel. O dito 'campeão moral'. Foi como um presente pra quem torceu pela parceria durante as eliminatórias. Os compositores ainda relembraram sambas antigos e, francamente, não foi como relembrar um samba em um bloco qualquer, foi diferente, foi de arrepiar. Esse bloco é especial. A Vila é especial.

Dois dias se passaram e lá estava eu na Vila de novo. Dessa vez no ensaio de rua que fechou a 28. Agora não encontrei só amigos do Sarau, mas também os novos amigos do Saco do Noel e, outra vez, algo de diferente aconteceu, afinal, não dá pra lembrar do poeta em outro lugar que não seja a Vila. Ao som do samba do Martinho, senti de novo um nó na garganta, o que me faz pensar que desfilar por Noel em 2010 será uma das maiores emoções possíveis.

Como diria o próprio: 'a Vila tem um feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem...'

É esse feitiço que nos apaixona cada vez mais. É o feitiço que faz os compositores perdedores aplaudirem o samba do Martinho. É o feitiço que causa-nos os arrepios, os delírios, os risos, os choros, os aplausos. Talvez seja também esse feitiço que faça os torcedores da Mangueira, da Portela, do Salgueiro, no fundo, torcerem por ela. É o feitiço da Vila.

Em 2010 eu sou de Vila Isabel... E quem não é?

Eis a era download... Que saudade do vinil...

Ainda nem chegou o CD de sambas enredo nas lojas, mas muitos dos nossos companheiros e comentaristas do sarau jé tem o CD completo dentro dos seus computadores. Graças ao download, não temos mais aquela expectativa de ouvir o CD quando chega nas lojas, como era no tempo de vinil, quando ouvíamos os sambas na época de natal, ano novo. Fora que os sambas campeões de cada escola já estavam disponíveis na web desde o início dos concursos. Agora acontece o mesmo com a gravação oficial.

A curiosidade para a chegada do CD é grande. Será ao vivo, como em alguns anos de décadas passadas e fará, ainda mais, a saudade apertar.

Tenho que dizer que não escuto samba nenhum antes de comprar o CD pessoalmente em uma loja e me surpreender com que cada escola preparou. Claro, alguns sambas é inevitável ouvir. Escutei o da Mocidade e da Vila Isabel, pois compareci à quadra e não tinha como tapar os ouvidos.

Nos tempos do vinil eu também fazia assim. Só ouvia os sambas na quadra que eu ia. Pedia ao meu avô (torcedor do Arranco do Engenho de Dentro e do América) um disco de presente de natal ou de aniversário e, quando ganhava, tinha prazer em ouvir o dia inteiro. Aí eu parava, junto com meu avô, pra analisar os sambas do ano. A conversa era animada, geralmente a gente puxava sardinha pros sambas da Portela, ele bebia mais uma e dizia que antes do carnaval ia me levar em um ensaio de rua em Madureira. Ah que saudade. Que prazer tinha em ouvir nos LPs a voz de Jamelão e Neguinho da Beija-Flor e seus gritos de guerra emblemáticos. Mas que saudade.

LP de 1995. Imperatriz campeã

Talvez o leitor não sinta saudade. Talvez não saiba do que se trata. Talvez o leitor nem consiga imaginar a cena. Talvez tenha baixado todos os sambas em setembro ou outubro e já os tenha analisado, criticado, elogiado e, quando chegar o carnaval, já não vai aguentar ouvi-los.

Amigos, até a próxima!

Imperatriz... contestada Imperatriz

Como eu estaria satisfeito, meus companheiros, se a Imperatriz não fosse tão contestada. Isso acontece desde o primeiro título dos Leopoldinenses, em 1980, e a afirmação da escola entre as grandes. Sua preocupação em fazer sempre um desfile técnico e racional, deu-lhe a fama de escola fria. Injustiça!

As famosas baianas do carnavalesco Arlindo Rodrigues, em 1980

A Imperatriz foi grandiosa e sempre mostrou um sério trabalho. O carnaval de 80 foi dividido entre a escola de Ramos, Portela e Beija-Flor de Nilópolis, talvez por isso, essas sejam as duas escolas que mais criticam a Leopoldinense.

Tudo se deve, entre outras coisas, aos carnavais de 1989 e 1995, ambos vencidos pela Verde-e-Branco, deixando respectivamente Beija e Portela em vice. Mereciam sim. Nilópolis merecia o título de 89, Portela merecia o título de 95, mas a Imperatriz não os mereceu? Talvez se Natal fosse vivo, teria novamente dividido o título entre as três, para amenizar a situação, como o fez em 1960 entre as cinco primeiras, para o desespero dos Salgueirenses.

A grande verdade é que sempre terá alguém reclamando, acusando, insatisfeito com o resultado. As escolas não precisam apontar a frieza de sua co-irmã, basta não emocionar somente as arquibancadas, mas também os jurados, para isso é preciso técnica. Aí voltarão a sentir o sabor do título.

À Ramos, força para 2010 e parabéns pelo crescimento nas décadas de 80 e 90.

20 anos após o "carnaval dos mendigos"

Em 1989, mesmo antes dos desfiles, a Beija-Flor de Nilópolis já era a favorita pra ganhar o carnaval e, certamente, a mais esperada pelo público. O enredo, seria desenvolvido por Joãozinho Trinta e se chamaria "Ratos e urubus, larguem minha fantasia". Certamente um contraste com todo o luxo que a Beija costumava apresentar em seus desfiles.

A polêmica envolvendo a Igreja às vésperas da nilopolitana entrar na avenida, ajudava a criar uma expectativa fora do comum para um desfile. Sabendo que haveria, no abre-alas da escola, uma imagem do Cristo Redentor na "versão mendiga", o arcebispo da cidade ordenou que houvesse a exclusão de tal alegoria. Daí criou-se uma das imagens mais lembradas de todos os tempos do carnaval carioca: o Cristo coberto com uma lona preta, deixando-se observar apenas a silhueta, rodeado de mendigos e trazendo uma faixa no peito com o dizer "Mesmo proibido, olhai por nós!"

Joãozinho Trinta era o responsável pela fama da Beija-Flor de ser uma escola que jamais dispensava o luxo e a riqueza em seus desfiles. Porém, desta vez, o carnavalesco aparecia irreconhecível, fantasiado de gari, jogando água no povo com uma mangueira (foto). Todos estavam boquiabertos.

Infelizmente, a azul-e-branco de Nilópolis perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense e não pode gritar "é campeã!" na mais memorável de suas apresentações, que ficou conhecida como "o carnaval dos mendigos". No sábado das campeãs, o Cristo já aparecia semi descoberto e deixava revelar sua roupa esfarrapada

O vice campeonato veio em uma perda de pontos no quesito samba enredo. Perda ainda contestada (e com razão) pelos nilopolitanos, pois a escola havia desfilado com um memorável samba, levado com maestria por Neguinho da Beija-Flor.

"Reluziu...

É ouro ou lata?

Formou a grande confusão...

Qual areia na farofa,

é o luxo e a pobreza

no meu mundo de ilusão.

Xepa! De lá pra cá xepei!

Sou na vida um mendigo,

da folia eu sou rei"

Assim dizia o samba de Betinho, Glyvaldo, Zé Maria e Osmar, que entrou pra história do carnaval.

Loucuras e superstições na Avenida Presidente Vargas

Existe um trecho da Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro, pouco lembrado, mas muito importante nas horas decisivas para garantir um desfile esplendoroso ou um fiasco de uma escola. Estou falando do trecho que vai do 'Balança Mas Não Cai' até o prédio dos Correios, que é onde acontece a concentração das escolas.

Trecho da Av. Presidente Vargas, onde concentram-se as escolas

Ali são consumadas orações, mandingas, feitiços e sperstições de um modo geral, realizados e motivados por corações prestes a explodir de euforia ou nervosismo.

Reza a lenda, que ainda na véspera do carnaval de 1974, o Natal (então presidente da Portela) mandara Hiram Araújo (elaborador do enredo "O Mundo Melhor de Pixinguinha") se dirigir à concentração no dia do desfile, encher a boca de cachaça e cuspir um gole sobre cada alegoria da azul-e-branco, como tivera ordenado seu pai-de-santo. Como Hiram se recusou a cumprir o desejo de Natal, este praguejou a águia, afirmando que ficaria 30 anos sem ganhar. Há quem diga que o atual jejum da Portela se deva a este episódio. Em 1974 o Salgueiro foi campeão, superando a Portela por um ponto.

Desde que existe o desfile das escolas de samba, existem as loucuras da concentração.

Em 1988, já com o sambódramo, uma mãe-de-santo fora flagrada dando um banho de arruda sobre alguns integrantes da Unidos de Vila Isabel. Alguns afirmam que o título da Vila desse ano se deve à fé da religiosa. A escola estava desmotivada para o carnaval de 88, algumas alegorias estavam inacabadas aos olhos dos jurados e a parte da comunidade não estava dando o apoio necessário à Vila. Outros relatos confirmam o abandono de alguns integrantes há alguns minutos do começo do desfile. As pessoas iam embora com a fantasia parcialmente vestida, por virem o estado das alegorias (não era tão ruim assim). Os integrantes que insistiram em desfilar mostraram a raça presente até no nome do enredo daquele ano, "Kizomba, a Festa da Raça". A Vila foi a campeã de 88.

Já teve gente infartando, parindo, desmaiando, chorando, sorrindo, tomando porre, vomitando, correndo pra não se atrasar etc. São as loucuras e as superstições na Avenida Presidente Vargas.

Caxias e a breve história do Sambódramo

Há quem critique a Acadêmicos do Grande Rio e afirme ser uma escola que se vende muito fácil, destaca artistas da TV, ao invés de bambas e tem prioridade nas transmissões do carnaval. Mas o inegável é que o enredo da Tricolor para 2010, apesar de ser descaradamente patrocinado, funciona e permite uma relação dos integrantes da escola com o desenvolvimento do tema. Vale deixar claro que o termo 'descaradamente patrocinado' se deve ao fato de algumas palavras serem obrigatórias no samba enredo, para lembrarem o slogan da marca, o que dificulta e limita a inspiração dos compositores, que nunca foi fácil quando o assunto é samba enredo.

Logo do Enredo da Grande Rio para 2010

Apesar dos pesares, este tipo de patrocínio é válido. Trata-se de uma marca de cerveja tradicional como patrocinadora do carnaval e com estreita relação com os desfiles da era Sambódramo (de 1984 pra cá), completando, em 2010, 20 anos do seu camarote, um dos mais tradicionais da Sapucaí. Daí nasce o enredo "Da arquibancada ao Camarote Número 1 - Um 'Grande Rio' de emoção na Apoteose do seu coração". É bom lembrar também que a cervejaria fica ao lado da Marquês de Sapucaí e será demolida para a construção de novas arquibancadas para as Olimpíadas de 16.

Se a história do Sambódramo de Niemyer é curta, a história da Tricolor de Caxias no Grupo Especial também é, e daí vem a relação do enredo com a comunidade, a inspiração dos compositores que fizeram dois bons sambas (que se fundiram em um só) e a motivação do carnavalesco Cahê Rodrigues, que promete um grande carnaval em 2010.

Cahê Rodrigues, carnavalesco da Grande Rio

Há alguns anos sendo figura carimbada no sábado das campeãs, a Grande Rio tem chances de surpreender em 2010 e levar um título inédito pra Duque de Caxias.

Por Onde Anda - Dona Ilydia

Baiana mais antiga (de idade) da Unidos do Porto da Pedra, desfilando pela escola há 14 anos, Dona Ilydia mostra que é uma das garras do Tigre.

Desde criança envolvida com o carnaval, ela participava dos desfiles da Azul e Rosa, do morro do Salgueiro, como conta em entrevista exclusiva à coluna Por Onde Anda do Sarau do Skindô.

- Eu saí no Salgueiro quando era criança, muito nova, no tempo que era Azul e Rosa, lá em cima no terreiro grande, isso era antes do Acadêmicos do Salgueiro. Juntamos com outras do morro do Salgueiro e veio o Acadêmicos do Salgueiro que hoje é vermelho e branco. Morei lá em cima muito tempo, a minha mãe era da ladeira, eu ia pro terreiro ensaiar, eu pegava a bandeira, eu dançava, saí um ano no mirim pra cumprimentar a delegacia, o distrito, na época tinha que correr o livro. Mas lá no Salgueiro, eu vivia dentro do terreiro, era terra batida nos tempos do Azul e Rosa. Fui também com o Salgueiro pro Guarujá fazer um show da Xica da Silva.

Declarando seu amor pela vermelho-e-branco de São Gonçalo, D. Ilydia se emociona:

- Meu marido não deixava eu frequentar as escolas, mas quando ele faleceu, a primeira coisa que eu fiz foi cair no samba. Eu adoro, e se estou hoje no Porto da Pedra é por que eu fui muito bem recebida.

Só me aposentei em 90, aí vim morar em São Gonçalo e só vim morar no Porto da Pedra por que eu queria vir pra perto da escola, aí foi quando eu tornei a desfilar. Desfilei em muitas escolas pequenas, o Boêmio, o Dragão, Sossego por dois anos, mas saindo no Porto da Pedra, não posso deixá-la pra ir nas outras escolas. Daqui eu vou até Deus me chamar. Me dou muito bem com as baianas, todos me tratam muito bem aqui. Aqui é minha casa!

Recordando o carnaval de 1995, quando ela começou na Porto da Pedra campeã do grupo de acesso, subindo pela primeira vez para o Especial, com o enredo "Campo-Cidade, em Busca da Felicidade", a anciã das baianas agradece o carinho da presidente da ala das baianas (Sandra) e afirma existir preconceito dos jurados.

- Sempre fui muito feliz na Porto da Pedra, acho que cheguei dando sorte em 95, mas agradeço à Dona Sandra, uma guerreira, ela adora as baianas, se desdobra, se dedica demais às baianas, se eu sou a vó das baianas, ela é a mãe.


Dona Ilydia posa ao lado dos instrumentos da bateria

Em 97 também foi um grande momento da escola, foi uma surpresa o 5º lugar, mas agora as coisas não andam boas.

A Porto da Pedra é uma criança, ainda não cresceu, então muita gente censura, mas acontece que tudo tem a sua hora. A nossa hora vai chegar, posso nem estar aqui pra assistir, mas vai chegar. Sempre tem um preconceito com escolas que estão subindo. Ainda não entendo o rebaixamento do Império ano passado.

Falando sobre o próximo carnaval, ela se mostra otimista e lembra o centenário de Noel Rosa.

- O legal deste ano é que o enredo também homenageia Noel Rosa, ele fez parte da minha vida, quando ele faleceu eu morava em Vila Isabel. A gente sempre canta uns sambas dele quando vamos ao clube todo fim de ano em uma homenagem aos aposentados.

Em 2010, a Porto da Pedra está pronta pra voltar no sábado das campeãs, talvez com o troféu na mão. Mas nem que a gente não ganhe, vamos estar entre as cinco primeiras. Só não podemos sair do Grupo Especial. Mas pelos comentários, pelo que eu vi lá no barracão, o carnaval está preparado. Eu peço ao meu orixá (Xangô) que a Porto da Pedra ganhe, é um sonho.

Força à Unidos do Porto da Pedra, que em 2010 traz para a avenida o enredo "Com que Roupa eu Vou ao Samba Que Você me Convidou?" e aos companheiros do Sarau do Skindô, até a próxima!

Recordar é viver

É de uma beleza extrema quando uma agremiação leva suas raízes pra avenida. Em 1980 a Unidos de São Carlos já retornava às suas origens da Deixa Falar e a União da Ilha já lembrava seus carnavais passados com o enredo vice-campeão ‘Bom, Bonito e Barato’.

O colorido inesquecível da Ilha em 1980

Depois vieram a Estação Primeira em 1983, a Mocidade de Padre Miguel de 1990, a Vila Isabel em 1994 e o Salgueiro de 2003 entre outras. Em 2009 a Imperatriz não conseguiu passar o sentimento dos seus 50 anos para os componentes. Mas nenhuma outra escola me fez entrar num túnel do tempo e realmente me sentir emocionado como a paulistana Nenê de Vila Matilde, na ocasião dos seus 60 anos. Que beleza aquele samba que agradecia à Portela e Mangueira por sua existência. Que bonita a homenagem ao Seu Nenê. Que visual esplendoroso aquela águia entrando na avenida nas primeiras horas de dia claro, em muito lembrando a Portela dos anos 70, desfilando na avenida Presidente Vargas sob os aplausos daqueles que aguardaram toda a noite só para vê-la.

Sempre bate aquela saudade quando vemos uma escola recordar a sua história na Sapucaí. O samba canta seus títulos, seus momentos memoráveis e até as horas difíceis. Se a função do nosso sarau, meus companheiros, é reviver a história da nossa folia, saudemos o velho Estácio que trás de volta as suas glórias para o sambódramo de 2010, 30 anos após o carnaval de 80.

'Deixa Falar', dizia a bandeira da Unidos de São Carlos de 1980

O enredo “Deixa falar, a Estácio é isso aí! Eu visto esse manto e vou por aí..." foi escrito com gírias de malandragem e faz o sambista viajar por anos e anos pra lembrar tudo que o samba já passou. É praticamente uma intimação a cada amante do samba do largo do Estácio, quando o Morro de São Carlos diz: “somos os únicos que não podemos pular fora deste barco”. É verdade, tudo começou lá. Se não fosse Ismael, Nilton Bastos, Bidê, Marçal, Cartola, Noel, talvez o carnaval hoje nem existisse mais. Escola de samba, certamente nem teria nascido. Nem Estácio, nem Portela, nem Salgueiro, nem Imperatriz, nem União da Ilha, nem Vila Matilde. E aí não teríamos assunto para os nossos saraus.

Obrigado Ismael. Obrigado Estácio. Obrigado Nenê.

Intérpretes desvalorizados

Olá, meus companheiros que nesta semana se surpreenderam com as palavras agressivas de Wantuir (intérprete da Acadêmicos do Grande Rio) e a indignação de alguns outros intérpretes com as atitudes de Nêgo (ex Império Serrano e atualmente sem escola). Nêgo teria visitado o barracão da Grande Rio em busca de uma vaga no carnaval 2010, causando indignação de Wantuir e alguns outros puxadores, que afirmaram não ser esta a primeira investida de Nêgo.

Nêgo e Wantuir: o clima esquentou

A tensão dos intérpretes Gilsinho (Portela e Vai-Vai), Dominguinhos do Estácio (Imperatriz Leopoldinense) e Bruno Ribas (Unidos da Tijuca) com seus respectivos empregos nem deveria existir se as escolas de samba investissem na carreira dos cantores, em busca de firmar a identidade da agremiação. Algumas escolas têm proporcionado uma ‘dança das cadeiras’ entre os intérpretes nos últimos anos, como a Mocidade de Padre Miguel, a Unidos da Tijuca, a Imperatriz Leopoldinense, a Acadêmicos do Grande Rio entre outras. Definitivamente, a escola que investe na busca de sua identidade, tem sua imagem preservada e evita alguns infortúnios.

Vejamos o caso das escolas que mantiveram suas ‘vozes’, geralmente prata da casa. Prezados senhores, alguém no nosso sarau imagina o Neguinho fora da Beija-Flor? Jamelão distante da Verde-e-Rosa? Este último, aliás, somente substituído no caso extremo do seu falecimento e, mesmo assim, por um mangueirense que já era apoio do Jamelão há alguns anos, o Luizito.

Claro, houveram alguns casos de substituição que não deram certo e voltou-se tudo como era antes, como o Quinho do Salgueiro, que após um curto período fora Vermelha-e-Branca, voltou a ser a primeira e tradicional voz a puxar o grito de guerra: Arrepia Salgueiro!

Alguns tentam se firmar e, parece que suas escolas tendem a manter sua tradição e repetir a mesma voz pelos anos seguintes. É o caso da Portela e da Vila Isabel, com Gilsinho e Tinga, respectivamente. Caso estes se mantiverem, será bom para as escolas que terão sua tradição mantida.

A força de Padre Miguel

Com satisfação e sede de vitória após ‘orgulho ferido’, a Mocidade de Padre Miguel elege um dos melhores sambas para 2010 (obra de J. Giovanni, Zé Glória e Hugo Reis) e já deixa de lado os possíveis problemas com a recente alteração da sinopse e as mágoas da 11ª colocação em 2009.

Desta vez, o carnavalesco Cid Carvalho achou por bem alterar o texto do enredo ‘Do paraíso de Deus ao paraíso da loucura. Cada um sabe o que procura’, apresentado aos compositores, para evitar novos conflitos com as religiões. A comunidade da Mocidade ficou apreensiva e lembrou-se de 2009, quando a sinopse foi alterada, o logotipo foi alterado, o título do enredo foi alterado e, consequentemente, a letra do samba teve de ser alterada. Adicionou-se a vida e a obra de Guimarães Rosa no enredo sobre Machado de Assis. Um erro. Tudo por um patrocínio que pouco ajudou. Outros problemas surgiram e até erro ortográfico fora constatado no texto (ironia do destino que Machado de Assis e Guimarães Rosa detestariam).

Após o carnaval e o sufoco de escapar por pouco do rebaixamento, descobriu-se material estocado nos barracões da escola. Material este que teria ajudado muito na avenida.

O fato é que a Mocidade respira e, ao contrário do Império, tem a chance de superar a crise e mostrar sua força. Esperamos cantar esse samba no nosso sarau.

Os novos sambas

Escolhidos todos os sambas do Grupo Especial para 2010. Bons sambas no geral. E como já é de praxe, vamos fazer uma votação em nosso sarau para eleger o melhor samba enredo do ano (tudo de maneira extra-oficial)

Nos anos anteriores essa eleição foi feita em paralelo com o 'Juri Imparcial do Orkut' (o JIO), sendo esse o primeiro ano em que a votação será realizada através do site Sarau do Skindô.

Veja o resultado das eleições nos últimos três anos:

  • 2009
  1. Império Serrano*
  2. Unidos da Tijuca
  3. Beija-Flor de Nilópolis
  4. Portela
  5. Estação Primeira de Mangueira
  6. Acadêmicos do Grande Rio
  7. Acadêmicos do Salgueiro
  8. Unidos do Viraodouro
  9. Imperatriz Leopoldinense
  10. Unidos do Porto da Pedra
  11. Mocidade Independente de Padre Miguel
  12. Unidos de Vila Isabel
  • 2008
  1. Imperatriz Leopoldinense
  2. Mocidade Independente de Padre Miguel
  3. Beija-Flor de Nilópolis
  4. Acadêmicos do Salgueiro
  5. Estação Primeira de Mangueira
  6. Unidos do Porto da Pedra
  7. Portela
  8. Acadêmicos do Grande Rio
  9. Unidos do Viradouro
  10. Unidos da Tijuca
  11. Unidos de Vila Isabel
  12. São Clemente
  • 2007
  1. Beija-Flor de Nilópolis
  2. Acadêmicos do Salgueiro
  3. Unidos do Porto da Pedra
  4. Estação Primeira de Mangueira
  5. Unidos da Tijuca
  6. Unidos de Vila Isabel
  7. Estácio de Sá*
  8. Unidos do Viradouro
  9. Portela
  10. Acadêmicos do Grande Rio
  11. Mocidade Independente de Padre Miguel
  12. Imperatriz Leopoldinense

*Samba reeditado

Cofira os compositores vencedores em cada agremiação:

Acadêmicos do Salgueiro - Josemar Manfredini, Brasil do Quintal, Jassa, Betinho do Ponto e Fernando Magaça

Beija-Flor de Nilópolis - Picolé da Beija Flor, Serginho Sumaré, Samir Trindade, Serginho Aguiar, Dison Marimba e André do Cavaco

Portela - Ciraninho, Rafael dos Santos, Diogo Nogueira, Naldo e Júnior Escafura

Unidos de Vila Isabel - Martinho da Vila

Acadêmicos do Grande Rio - Arlindo Cruz, Barbeirinho, Mingay, G. Marins, Emerson Dias, Levi Dutra, Carlos Sena, Chico da Vila, Da Lua, Isaac, Rafael Ribeiro e Juarez Pantoja

Estação Primeira de Mangueira - Renan Brandão, Machado, Paulinho Bandolim e Rodrigo Carioca

Unidos do Viradouro - Floriano, Gustavo da Marbela e Sacadura Cabral

Imperatriz Leopoldinense - Jeferson Lima, Flavinho, Gil Branco, Me Leva e Guga

Unidos da Tijuca - Júlio Alves, Marcelinho e Totonho

Unidos do Porto da Pedra - Bira, Porkinho e Heitor Costa

Mocidade Independente de Padre Miguel - J. Giovanni, Zé Glória e Hugo Reis

União da Ilha do Governador - Grassano, Gabriel Fraga, Márcio André Filho, João Bosco, Arlindo Neto, Gugu das Candongas, Marquinho do Banjo, Barbosão, Ito Melodia e Léo da Ilha

A votação ficará aberta até o carnaval e qualquer pessoa pode participar. Bom, meus companheiros de sarau, por hoje é só.

O cavalo e a águia

Num bar de esquina da Rua do Lavradio com a antiga Mata-Cavalos, eu me reunia com alguns amigos companheiros de copo. O assunto, como os senhores podem esperar, era o carnaval.

Já entregue às brincadeiras que entravam pela madrugada e aos efeitos do álcool, um desses meus comparsas boêmios, simulando uma quarta-feira de cinzas, começou uma citação em alta e grave voz:

-Estação Primeira de Mangueira... Dez!!!

Surpresos, nós aguardávamos a continuidade enquando ríamos e aplaudíamos a interpretação do rapaz. E ele prosseguiu:

-Acadêmicos do Salgueiro... Dez!!!

Permanecia o burburinho no bar enquanto o moço insistia:

-Mocidade Independente de Padre Miguel... Nota dez!!!

Aplaudiram, então, os moradores da Zona Oeste.

-Beija-Flor de Nilópolis... Dez, nota dez!!! - continuava o rapagão. Acabou-se a agitação quando por fim ele bravou:

-Pooooortela... Cinco ponto cinco!!!

O silencio, então, reinou e mudamos de assunto, mas a pergunta ficou na minha cabeça: O que acontece com a Portela?

A situação atual da escola não incomoda apenas pelo jejum de títulos, mas por não ser mais respeitada como era antes. E como deveria ser.

Portela sempre foi sinônimo de escola forte, vitoriosa, sambas grandiosos, comunidade respeitada, sambistas de primeira. Mas por qual motivo a diretoria portelense não ouve mais a sua comunidade? Por qual motivo a escola, após ter reencontrado o caminho, prefere utilizar o pobre enredo sobre tecnologia, a que exalta um 'Rio de Paz', que na verdade é um 'Rio de Paes', como classificou Eugênio Leal*? A Portela realmente precisa disso? O fato é que a agremiação de Oswaldo Cruz vê-se perdida há alguns anos. A foto é do desfile de 2005, um dos piores momentos. Princípio de incêndio no abre-alas e um amargo 13º lugar.

Já escrevi aqui sobre enredos que mostram a identidade da escola, quando o assunto era Mangueira. Em 2009 a Portela nos encheu de esperança com o enredo 'E por falar em amor, onde anda você?' que definia bem a identidade dos, sempre românticos, portelenses. Faturou um 3º lugar e entrou para o sábado das campeãs pela 2ª vez consecutiva, enchendo os torcedores de vontade de ganhar em 2010. Será difícil.

Às vezes a Portela se comporta como um cavalo.

Os mais idosos costumam falar que se o cavalo soubesse a força que tem, não se deixaria subordinar pelo homem. Ah se a Portela soubesse da força que tem...

Assim, a águia sofre em busca de sua identidade perdida. Seria fácil encontrar se escutasse os portelenses que há um tempo clamam por enredos grandiosos, como Clara Nunes, Paulinho da Viola ou o próprio romantismo apresentado em 2009, 98 e 95.

Força Portela!

*Referância à coluna de Eugênio Leal no site SRZD Carnavalesco, do jornalista Sidney Rezende.

A Mangueira é do Brasil

Meus amigos, saudemos a Estação Primeira de Mangueira, que tem para o próximo carnaval um enredo rico e poético: A Música do Brasil.

É de extrema importância que a escola apresente um enredo no qual se identifique e faça sua comunidade se sentir a vontade. Numa dessas ocasiões, o carnavalesco Milton Cunha lembrou o carnaval em que a Imperatriz Leopoldinense homenageou Chacrinha e o bacalhau norueguês. "As baianas cantavam sem graça e desmotivadas sem saber do que estavam falando", disse Milton. Quando o assunto é Mangueira, isso fica explicito.

Analisando a hitória recente da agremiação (dos anos 90 pra cá), podemos perceber a intimidade dos mangueirenses com a pátria e enredos relacionados com a música e o povo brasileiros. Em 1994, com o Tropicalismo de 'Atrás da Verde-e-Rosa só Não Vai Quem Já Morreu', em 98 com 'Chico Buarque de Mangueira' e em 99 com 'O Século do Samba', a Estação Primeira esteve de corpo e alma na Sapucaí e, não hesito em dizer, de maneira memorável.

Nos anos 2000 a Verde-e-Rosa alcançou o sonhado título (o 18º, no ano 2002) homenageando o povo do Nordeste, suas crenças e tradições. Tentou repetir a dose em 2008, saudando os 100 anos do Frevo Pernambucano, enquanto o, também centenário, Cartola seria lembrado apenas em uma alegoria. Pecado mortal! Pegou uma chuva forte na hora do desfile, por ironia ou castigo dos deuses, e acabou por amargar um 10º lugar. Recuperou-se em 2009, falando dos 'Brasis do Brasil' e mostrando a garra de sua comunidade, após superar a crise que afetara o barracão e retornar no sábado das campeãs.

Em 2002, a 'Nação do Nordeste'

Para 2010 a Mangueira trocou de presidência e vem renovada com outro enredo que é 'a sua cara', prometendo brigar pelo 19º título.

De 1974 a 2010

No último sábado (3/10) a Unidos de Vila Isabel escolheu o samba que levará pra avenida no carnaval de 2010. Satisfatoriamente, deu Martinho.

O enredo da Vila já é uma obra-prima e em muito me lembra a Portela de 1974, com o antológico 'Mundo Melhor de Pixinguinha', no qual a letra do samba (obra de Jair Amorim e Evaldo Gouveia) era quase um poema, em que se destacavam as seguintes estrofes:

"A roseira dá rosa em botão
Pixinguinha dá rosa canção
E a canção bonita é como a flor
Que tem perfume e cor.

E ele que era um poema de ternura e paz

Fez um buquê que não se esquece mais

De rosas musicais."

A Portela emocionou em 1974

Inspirado no momento que a escola vive e, talvez, inspirado na Portela de 74, Martinho da Vila fez um samba belíssimo, digno do enredo 'Noel, a Presença do Poeta da Vila' e digno de ser campeão do carnaval. A canção, apesar de ser uma releitura descarada do samba 'A Presença de Noel' (do próprio Martinho, em parceria com Gracia do Salgueiro), emociona e enche a comunidade da Vila de orgulho. A obra escolhida sofreu alterações e foi adequada para ir à avenida do século XXI, mas ainda assim, resgata a essência dos sambas enredo e revoluciona o padrão de sambas atual, em que as obras morrem após a quarta de cinzas.

Vila Isabel promete em 2010 e tem sede de título. Em 2009 fez o desfile mais belo da década, mas ficou em 4º lugar após, merecidamente, perder pontos no quesito samba enredo. Porém, no centenário de Noel Rosa, a escola não deixa brechas para notas baixas nos quesitos enredo e samba enredo e já é favorita.

Ouça o samba do Martinho

A emoção de ser campeão do carnaval

"Sempre fui portelense e morador do subúrbio carioca, porém cresci ouvindo os maiores sambas da União da Ilha: "É Hoje"; "Bom, Bonito e Barato"; "Domingo"; "Festa Profana"; "O Amanhã"; "De Bar em Bar, Didi um Poeta"; encantava-me também com as histórias dessa simpática escola. Mas antes do carnaval de 2001, eu fui morar na Ilha do Governador e passei a ter mais contato com a agremiação e a frequentar a quadra. Naquele ano a Ilha foi rebaixada após 27 anos no Grupo Especial. Será que eu tinha dado azar pra escola?

Passei mais alguns anos morando na Ilha, frequentando a quadra, mas sem desfilar, e nada da União subir. Sempre achei que deveria participar mais ativamente da União da Ilha e ajudá-la nesse momento difícil, mas não tive a oportunidade. Voltei a morar próximo à Madureira e ter mais contato com a Portela, indo a ensaios, desfiles, feijoadas, mas sem deixar de acompanhar a saga da Ilha no Grupo de Acesso A.

Trabalhando num barracão que faz fantasias para algumas escolas, incluindo Portela e Ilha, voltei a ter contato com a escola insulana e, em 2009, consegui uma vaga para desfilar pela primeira vez na União da Ilha. Agora eu via que estava contribuindo para o crescimento da escola e que poderia ter feito isso antes.

O grande momento havia chegado, era hora do desfile, encontrei alguns conhecidos como diretores de harmonia ou fantasiados como eu, todos estavam cheios de garra e prontos para mostrar novamente que aquela era a escola que mais levava alegria à Sapucaí.

Começou o esquenta...

Ainda na concentração eu só consegui cantar o primeiro verso: "A minha alegria atravessou o mar..." Algo me fazia chorar compulsivamente.

Quando minha ala deixou a Presidente Vargas e eu deparei com a "Sapucaí do Povão" (era a primeira vez que eu desfilava no Acesso), parei de chorar e incorporei o folião insulano, responsável pela fama e pela simpatia daquela escola. Todos nós fazíamos questão de mostrar que sabíamos o samba do ano de cor. Cantávamos até o último andar de camarote ouvir nosso canto rouco.

Na dispersão eu não conseguia falar e vi que todos se abraçavam. Abracei meu irmão e meus amigos que me acompanharam aquele dia. Da Apoteose podíamos ouvir o som que vinha das arquibancadas populares: "É campeã! É campeã!"

Perdi a voz de novo na quarta de cinzas. A União da Ilha era finalmente bicampeã do Grupo de Acesso, e eu pude ter a certeza de que havia feito a minha parte. Esse título era dos insulanos. Esse título era meu!

Na despedida do carnaval, foliões lotaram a Avenida Rio Branco para a passagem do Monobloco no primeiro domingo da quaresma. Não se ouvia sambas do Salgueiro, campeão do Especial, não, o povo cantava os sambas da Ilha! Não era sonho, após o bloco passar, a multidão cantava: "Ôôôhhh a União voltoou! A União voltou! A União voltou! Ôôôhhh..." Nunca vi tanta alegria por uma escola que voltava do Grupo de Acesso. Foi de arrepiar!"

Texto gentilmente publicado por Thatiana Pagung, rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, em sua coluna no site do jornalista Sidney Rezende.

http://www.sidneyrezende.com/noticia/40822+e+campea+e+campea