Eis a era download... Que saudade do vinil...

Ainda nem chegou o CD de sambas enredo nas lojas, mas muitos dos nossos companheiros e comentaristas do sarau jé tem o CD completo dentro dos seus computadores. Graças ao download, não temos mais aquela expectativa de ouvir o CD quando chega nas lojas, como era no tempo de vinil, quando ouvíamos os sambas na época de natal, ano novo. Fora que os sambas campeões de cada escola já estavam disponíveis na web desde o início dos concursos. Agora acontece o mesmo com a gravação oficial.

A curiosidade para a chegada do CD é grande. Será ao vivo, como em alguns anos de décadas passadas e fará, ainda mais, a saudade apertar.

Tenho que dizer que não escuto samba nenhum antes de comprar o CD pessoalmente em uma loja e me surpreender com que cada escola preparou. Claro, alguns sambas é inevitável ouvir. Escutei o da Mocidade e da Vila Isabel, pois compareci à quadra e não tinha como tapar os ouvidos.

Nos tempos do vinil eu também fazia assim. Só ouvia os sambas na quadra que eu ia. Pedia ao meu avô (torcedor do Arranco do Engenho de Dentro e do América) um disco de presente de natal ou de aniversário e, quando ganhava, tinha prazer em ouvir o dia inteiro. Aí eu parava, junto com meu avô, pra analisar os sambas do ano. A conversa era animada, geralmente a gente puxava sardinha pros sambas da Portela, ele bebia mais uma e dizia que antes do carnaval ia me levar em um ensaio de rua em Madureira. Ah que saudade. Que prazer tinha em ouvir nos LPs a voz de Jamelão e Neguinho da Beija-Flor e seus gritos de guerra emblemáticos. Mas que saudade.

LP de 1995. Imperatriz campeã

Talvez o leitor não sinta saudade. Talvez não saiba do que se trata. Talvez o leitor nem consiga imaginar a cena. Talvez tenha baixado todos os sambas em setembro ou outubro e já os tenha analisado, criticado, elogiado e, quando chegar o carnaval, já não vai aguentar ouvi-los.

Amigos, até a próxima!

Imperatriz... contestada Imperatriz

Como eu estaria satisfeito, meus companheiros, se a Imperatriz não fosse tão contestada. Isso acontece desde o primeiro título dos Leopoldinenses, em 1980, e a afirmação da escola entre as grandes. Sua preocupação em fazer sempre um desfile técnico e racional, deu-lhe a fama de escola fria. Injustiça!

As famosas baianas do carnavalesco Arlindo Rodrigues, em 1980

A Imperatriz foi grandiosa e sempre mostrou um sério trabalho. O carnaval de 80 foi dividido entre a escola de Ramos, Portela e Beija-Flor de Nilópolis, talvez por isso, essas sejam as duas escolas que mais criticam a Leopoldinense.

Tudo se deve, entre outras coisas, aos carnavais de 1989 e 1995, ambos vencidos pela Verde-e-Branco, deixando respectivamente Beija e Portela em vice. Mereciam sim. Nilópolis merecia o título de 89, Portela merecia o título de 95, mas a Imperatriz não os mereceu? Talvez se Natal fosse vivo, teria novamente dividido o título entre as três, para amenizar a situação, como o fez em 1960 entre as cinco primeiras, para o desespero dos Salgueirenses.

A grande verdade é que sempre terá alguém reclamando, acusando, insatisfeito com o resultado. As escolas não precisam apontar a frieza de sua co-irmã, basta não emocionar somente as arquibancadas, mas também os jurados, para isso é preciso técnica. Aí voltarão a sentir o sabor do título.

À Ramos, força para 2010 e parabéns pelo crescimento nas décadas de 80 e 90.

20 anos após o "carnaval dos mendigos"

Em 1989, mesmo antes dos desfiles, a Beija-Flor de Nilópolis já era a favorita pra ganhar o carnaval e, certamente, a mais esperada pelo público. O enredo, seria desenvolvido por Joãozinho Trinta e se chamaria "Ratos e urubus, larguem minha fantasia". Certamente um contraste com todo o luxo que a Beija costumava apresentar em seus desfiles.

A polêmica envolvendo a Igreja às vésperas da nilopolitana entrar na avenida, ajudava a criar uma expectativa fora do comum para um desfile. Sabendo que haveria, no abre-alas da escola, uma imagem do Cristo Redentor na "versão mendiga", o arcebispo da cidade ordenou que houvesse a exclusão de tal alegoria. Daí criou-se uma das imagens mais lembradas de todos os tempos do carnaval carioca: o Cristo coberto com uma lona preta, deixando-se observar apenas a silhueta, rodeado de mendigos e trazendo uma faixa no peito com o dizer "Mesmo proibido, olhai por nós!"

Joãozinho Trinta era o responsável pela fama da Beija-Flor de ser uma escola que jamais dispensava o luxo e a riqueza em seus desfiles. Porém, desta vez, o carnavalesco aparecia irreconhecível, fantasiado de gari, jogando água no povo com uma mangueira (foto). Todos estavam boquiabertos.

Infelizmente, a azul-e-branco de Nilópolis perdeu o título para a Imperatriz Leopoldinense e não pode gritar "é campeã!" na mais memorável de suas apresentações, que ficou conhecida como "o carnaval dos mendigos". No sábado das campeãs, o Cristo já aparecia semi descoberto e deixava revelar sua roupa esfarrapada

O vice campeonato veio em uma perda de pontos no quesito samba enredo. Perda ainda contestada (e com razão) pelos nilopolitanos, pois a escola havia desfilado com um memorável samba, levado com maestria por Neguinho da Beija-Flor.

"Reluziu...

É ouro ou lata?

Formou a grande confusão...

Qual areia na farofa,

é o luxo e a pobreza

no meu mundo de ilusão.

Xepa! De lá pra cá xepei!

Sou na vida um mendigo,

da folia eu sou rei"

Assim dizia o samba de Betinho, Glyvaldo, Zé Maria e Osmar, que entrou pra história do carnaval.

Loucuras e superstições na Avenida Presidente Vargas

Existe um trecho da Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio de Janeiro, pouco lembrado, mas muito importante nas horas decisivas para garantir um desfile esplendoroso ou um fiasco de uma escola. Estou falando do trecho que vai do 'Balança Mas Não Cai' até o prédio dos Correios, que é onde acontece a concentração das escolas.

Trecho da Av. Presidente Vargas, onde concentram-se as escolas

Ali são consumadas orações, mandingas, feitiços e sperstições de um modo geral, realizados e motivados por corações prestes a explodir de euforia ou nervosismo.

Reza a lenda, que ainda na véspera do carnaval de 1974, o Natal (então presidente da Portela) mandara Hiram Araújo (elaborador do enredo "O Mundo Melhor de Pixinguinha") se dirigir à concentração no dia do desfile, encher a boca de cachaça e cuspir um gole sobre cada alegoria da azul-e-branco, como tivera ordenado seu pai-de-santo. Como Hiram se recusou a cumprir o desejo de Natal, este praguejou a águia, afirmando que ficaria 30 anos sem ganhar. Há quem diga que o atual jejum da Portela se deva a este episódio. Em 1974 o Salgueiro foi campeão, superando a Portela por um ponto.

Desde que existe o desfile das escolas de samba, existem as loucuras da concentração.

Em 1988, já com o sambódramo, uma mãe-de-santo fora flagrada dando um banho de arruda sobre alguns integrantes da Unidos de Vila Isabel. Alguns afirmam que o título da Vila desse ano se deve à fé da religiosa. A escola estava desmotivada para o carnaval de 88, algumas alegorias estavam inacabadas aos olhos dos jurados e a parte da comunidade não estava dando o apoio necessário à Vila. Outros relatos confirmam o abandono de alguns integrantes há alguns minutos do começo do desfile. As pessoas iam embora com a fantasia parcialmente vestida, por virem o estado das alegorias (não era tão ruim assim). Os integrantes que insistiram em desfilar mostraram a raça presente até no nome do enredo daquele ano, "Kizomba, a Festa da Raça". A Vila foi a campeã de 88.

Já teve gente infartando, parindo, desmaiando, chorando, sorrindo, tomando porre, vomitando, correndo pra não se atrasar etc. São as loucuras e as superstições na Avenida Presidente Vargas.

Caxias e a breve história do Sambódramo

Há quem critique a Acadêmicos do Grande Rio e afirme ser uma escola que se vende muito fácil, destaca artistas da TV, ao invés de bambas e tem prioridade nas transmissões do carnaval. Mas o inegável é que o enredo da Tricolor para 2010, apesar de ser descaradamente patrocinado, funciona e permite uma relação dos integrantes da escola com o desenvolvimento do tema. Vale deixar claro que o termo 'descaradamente patrocinado' se deve ao fato de algumas palavras serem obrigatórias no samba enredo, para lembrarem o slogan da marca, o que dificulta e limita a inspiração dos compositores, que nunca foi fácil quando o assunto é samba enredo.

Logo do Enredo da Grande Rio para 2010

Apesar dos pesares, este tipo de patrocínio é válido. Trata-se de uma marca de cerveja tradicional como patrocinadora do carnaval e com estreita relação com os desfiles da era Sambódramo (de 1984 pra cá), completando, em 2010, 20 anos do seu camarote, um dos mais tradicionais da Sapucaí. Daí nasce o enredo "Da arquibancada ao Camarote Número 1 - Um 'Grande Rio' de emoção na Apoteose do seu coração". É bom lembrar também que a cervejaria fica ao lado da Marquês de Sapucaí e será demolida para a construção de novas arquibancadas para as Olimpíadas de 16.

Se a história do Sambódramo de Niemyer é curta, a história da Tricolor de Caxias no Grupo Especial também é, e daí vem a relação do enredo com a comunidade, a inspiração dos compositores que fizeram dois bons sambas (que se fundiram em um só) e a motivação do carnavalesco Cahê Rodrigues, que promete um grande carnaval em 2010.

Cahê Rodrigues, carnavalesco da Grande Rio

Há alguns anos sendo figura carimbada no sábado das campeãs, a Grande Rio tem chances de surpreender em 2010 e levar um título inédito pra Duque de Caxias.

Por Onde Anda - Dona Ilydia

Baiana mais antiga (de idade) da Unidos do Porto da Pedra, desfilando pela escola há 14 anos, Dona Ilydia mostra que é uma das garras do Tigre.

Desde criança envolvida com o carnaval, ela participava dos desfiles da Azul e Rosa, do morro do Salgueiro, como conta em entrevista exclusiva à coluna Por Onde Anda do Sarau do Skindô.

- Eu saí no Salgueiro quando era criança, muito nova, no tempo que era Azul e Rosa, lá em cima no terreiro grande, isso era antes do Acadêmicos do Salgueiro. Juntamos com outras do morro do Salgueiro e veio o Acadêmicos do Salgueiro que hoje é vermelho e branco. Morei lá em cima muito tempo, a minha mãe era da ladeira, eu ia pro terreiro ensaiar, eu pegava a bandeira, eu dançava, saí um ano no mirim pra cumprimentar a delegacia, o distrito, na época tinha que correr o livro. Mas lá no Salgueiro, eu vivia dentro do terreiro, era terra batida nos tempos do Azul e Rosa. Fui também com o Salgueiro pro Guarujá fazer um show da Xica da Silva.

Declarando seu amor pela vermelho-e-branco de São Gonçalo, D. Ilydia se emociona:

- Meu marido não deixava eu frequentar as escolas, mas quando ele faleceu, a primeira coisa que eu fiz foi cair no samba. Eu adoro, e se estou hoje no Porto da Pedra é por que eu fui muito bem recebida.

Só me aposentei em 90, aí vim morar em São Gonçalo e só vim morar no Porto da Pedra por que eu queria vir pra perto da escola, aí foi quando eu tornei a desfilar. Desfilei em muitas escolas pequenas, o Boêmio, o Dragão, Sossego por dois anos, mas saindo no Porto da Pedra, não posso deixá-la pra ir nas outras escolas. Daqui eu vou até Deus me chamar. Me dou muito bem com as baianas, todos me tratam muito bem aqui. Aqui é minha casa!

Recordando o carnaval de 1995, quando ela começou na Porto da Pedra campeã do grupo de acesso, subindo pela primeira vez para o Especial, com o enredo "Campo-Cidade, em Busca da Felicidade", a anciã das baianas agradece o carinho da presidente da ala das baianas (Sandra) e afirma existir preconceito dos jurados.

- Sempre fui muito feliz na Porto da Pedra, acho que cheguei dando sorte em 95, mas agradeço à Dona Sandra, uma guerreira, ela adora as baianas, se desdobra, se dedica demais às baianas, se eu sou a vó das baianas, ela é a mãe.


Dona Ilydia posa ao lado dos instrumentos da bateria

Em 97 também foi um grande momento da escola, foi uma surpresa o 5º lugar, mas agora as coisas não andam boas.

A Porto da Pedra é uma criança, ainda não cresceu, então muita gente censura, mas acontece que tudo tem a sua hora. A nossa hora vai chegar, posso nem estar aqui pra assistir, mas vai chegar. Sempre tem um preconceito com escolas que estão subindo. Ainda não entendo o rebaixamento do Império ano passado.

Falando sobre o próximo carnaval, ela se mostra otimista e lembra o centenário de Noel Rosa.

- O legal deste ano é que o enredo também homenageia Noel Rosa, ele fez parte da minha vida, quando ele faleceu eu morava em Vila Isabel. A gente sempre canta uns sambas dele quando vamos ao clube todo fim de ano em uma homenagem aos aposentados.

Em 2010, a Porto da Pedra está pronta pra voltar no sábado das campeãs, talvez com o troféu na mão. Mas nem que a gente não ganhe, vamos estar entre as cinco primeiras. Só não podemos sair do Grupo Especial. Mas pelos comentários, pelo que eu vi lá no barracão, o carnaval está preparado. Eu peço ao meu orixá (Xangô) que a Porto da Pedra ganhe, é um sonho.

Força à Unidos do Porto da Pedra, que em 2010 traz para a avenida o enredo "Com que Roupa eu Vou ao Samba Que Você me Convidou?" e aos companheiros do Sarau do Skindô, até a próxima!

Recordar é viver

É de uma beleza extrema quando uma agremiação leva suas raízes pra avenida. Em 1980 a Unidos de São Carlos já retornava às suas origens da Deixa Falar e a União da Ilha já lembrava seus carnavais passados com o enredo vice-campeão ‘Bom, Bonito e Barato’.

O colorido inesquecível da Ilha em 1980

Depois vieram a Estação Primeira em 1983, a Mocidade de Padre Miguel de 1990, a Vila Isabel em 1994 e o Salgueiro de 2003 entre outras. Em 2009 a Imperatriz não conseguiu passar o sentimento dos seus 50 anos para os componentes. Mas nenhuma outra escola me fez entrar num túnel do tempo e realmente me sentir emocionado como a paulistana Nenê de Vila Matilde, na ocasião dos seus 60 anos. Que beleza aquele samba que agradecia à Portela e Mangueira por sua existência. Que bonita a homenagem ao Seu Nenê. Que visual esplendoroso aquela águia entrando na avenida nas primeiras horas de dia claro, em muito lembrando a Portela dos anos 70, desfilando na avenida Presidente Vargas sob os aplausos daqueles que aguardaram toda a noite só para vê-la.

Sempre bate aquela saudade quando vemos uma escola recordar a sua história na Sapucaí. O samba canta seus títulos, seus momentos memoráveis e até as horas difíceis. Se a função do nosso sarau, meus companheiros, é reviver a história da nossa folia, saudemos o velho Estácio que trás de volta as suas glórias para o sambódramo de 2010, 30 anos após o carnaval de 80.

'Deixa Falar', dizia a bandeira da Unidos de São Carlos de 1980

O enredo “Deixa falar, a Estácio é isso aí! Eu visto esse manto e vou por aí..." foi escrito com gírias de malandragem e faz o sambista viajar por anos e anos pra lembrar tudo que o samba já passou. É praticamente uma intimação a cada amante do samba do largo do Estácio, quando o Morro de São Carlos diz: “somos os únicos que não podemos pular fora deste barco”. É verdade, tudo começou lá. Se não fosse Ismael, Nilton Bastos, Bidê, Marçal, Cartola, Noel, talvez o carnaval hoje nem existisse mais. Escola de samba, certamente nem teria nascido. Nem Estácio, nem Portela, nem Salgueiro, nem Imperatriz, nem União da Ilha, nem Vila Matilde. E aí não teríamos assunto para os nossos saraus.

Obrigado Ismael. Obrigado Estácio. Obrigado Nenê.