Num bar de esquina da Rua do Lavradio com a antiga Mata-Cavalos, eu me reunia com alguns amigos companheiros de copo. O assunto, como os senhores podem esperar, era o carnaval.
Já entregue às brincadeiras que entravam pela madrugada e aos efeitos do álcool, um desses meus comparsas boêmios, simulando uma quarta-feira de cinzas, começou uma citação em alta e grave voz:
-Estação Primeira de Mangueira... Dez!!!
Surpresos, nós aguardávamos a continuidade enquando ríamos e aplaudíamos a interpretação do rapaz. E ele prosseguiu:
-Acadêmicos do Salgueiro... Dez!!!
Permanecia o burburinho no bar enquanto o moço insistia:
-Mocidade Independente de Padre Miguel... Nota dez!!!
Aplaudiram, então, os moradores da Zona Oeste.
-Beija-Flor de Nilópolis... Dez, nota dez!!! - continuava o rapagão. Acabou-se a agitação quando por fim ele bravou:
-Pooooortela... Cinco ponto cinco!!!
O silencio, então, reinou e mudamos de assunto, mas a pergunta ficou na minha cabeça: O que acontece com a Portela?
A situação atual da escola não incomoda apenas pelo jejum de títulos, mas por não ser mais respeitada como era antes. E como deveria ser.
Portela sempre foi sinônimo de escola forte, vitoriosa, sambas grandiosos, comunidade respeitada, sambistas de primeira. Mas por qual motivo a diretoria portelense não ouve mais a sua comunidade? Por qual motivo a escola, após ter reencontrado o caminho, prefere utilizar o pobre enredo sobre tecnologia, a que exalta um 'Rio de Paz', que na verdade é um 'Rio de Paes', como classificou Eugênio Leal*? A Portela realmente precisa disso? O fato é que a agremiação de Oswaldo Cruz vê-se perdida há alguns anos. A foto é do desfile de 2005, um dos piores momentos. Princípio de incêndio no abre-alas e um amargo 13º lugar.
Já escrevi aqui sobre enredos que mostram a identidade da escola, quando o assunto era Mangueira. Em 2009 a Portela nos encheu de esperança com o enredo 'E por falar em amor, onde anda você?' que definia bem a identidade dos, sempre românticos, portelenses. Faturou um 3º lugar e entrou para o sábado das campeãs pela 2ª vez consecutiva, enchendo os torcedores de vontade de ganhar em 2010. Será difícil.
Às vezes a Portela se comporta como um cavalo.
Os mais idosos costumam falar que se o cavalo soubesse a força que tem, não se deixaria subordinar pelo homem. Ah se a Portela soubesse da força que tem...
Assim, a águia sofre em busca de sua identidade perdida. Seria fácil encontrar se escutasse os portelenses que há um tempo clamam por enredos grandiosos, como Clara Nunes, Paulinho da Viola ou o próprio romantismo apresentado em 2009, 98 e 95.
Força Portela!
*Referância à coluna de Eugênio Leal no site SRZD Carnavalesco, do jornalista Sidney Rezende.