Por Onde Anda - Milton Cunha

O primeiro Sarau do Skindô de 2010 recebe a ilustre presença do carnavalesco Milton Cunha, artista admirador dos antigos carnavais cariocas. Desde 1994, Milton se dedica ao trabalho de carnavalesco, com um vasto currículo, que inclui Beija-Flor de Nilópolis (94 a 97), União da Ilha (98 e 99), Leandro de Itaquera (2001), Unidos da Tijuca (2002 e 2003), São Clemente (2004, 2005 e 2008), Unidos do Viradouro (2006 e 2009), Unidos do Porto da Pedra (2007) e Acadêmicos do Cubango (para o próximo carnaval).

Dentre as emoções vividas por Milton nesses anos de carnaval, ele classifica dois momentos como os mais importantes: o carnaval de 95 da Beija-Flor e o incêndio do barracão da Ilha em 99.

"O melhor momento que eu pude ter foi trazer Bidu Sayão no carnaval da Beija de 95 no carro do Cisne Negro, naquele trono inesquecivelmente magnífico. A melhor coisa do mundo é encontrar a simplicidade das crianças nas pessoas de terceira idade, no caso dela, sexta idade já", brinca Milton.

Sobre o ano de 1999, o carnavalesco se emociona e desabafa:

"O incêndio de 99 foi a menos de um mês do carnaval, lembro como se fosse ontem o rosto dos trabalhadores desesperados quando cheguei na Avenida Venezuela e vi tudo destruído. A idéia que eu tive foi de abandonar tudo, mas quando eu vi o amor da comunidade para reconstruir o carnaval da Ilha, tive forças pra continuar. Ainda teve a chuva que acabou com mais algumas alegorias. Graças à prova de amor dos insulanos, nós não caímos naquele ano. Mas pra mim foi um trauma, passei um ano fora do carnaval, confesso que pensei em deixar de ser carnavalesco, mas em 2001 recebi o convite da Leandro de Itaquera e aceitei participar do carnaval paulista. Uma vez eu falei e hoje repito que nunca, jamais, em tempo algum eu vou esquecer o carnaval de 99"

A emoção toma conta do sarau e, ao som de antigos sambas do Salgueiro, Milton Cunha recorda dois momentos que considera o ápice do carnaval carioca: a Vermelho-e-Branco da década de 60 e a Beija-Flor de 89.

"É difícil decidir um momento só, mas considero a virada afro do Salgueiro na década de 60, com Pamplona e os salgueirenses apaixonados. Foi uma revolução! Como sou um estudioso da vida de Joãozinho Trinta, também gosto muito do ‘Carnaval dos Mendigos’ de 89. Aquilo, pra mim foi uma coisa indescritível e, por isso, foi uma honra dirigir o carnaval da Beija-Flor na década de 90."


Quando o assunto foi atualidade, o artista lamenta a falta de verba para a Viradouro no último carnaval, que resultou apenas em um 8º lugar e fala com esperanças para o carnaval da Cubango 2010:

"O que faltou para a Viradouro em 2009 foi dinheiro. Ser carnavalesco é uma missão artística e administrativa. Se você tem boas idéias mas não tem dinheiro pra pô-las em prática, tudo fica muito difícil. No ano passado a Viradouro pisou na avenida com muita garra e cantando um samba belíssimo, mas havia fantasias e alegorias inacabadas.


Já a Cubango em 2010 tem todas as chances. A Acadêmicos do Cubango traz pra avenida um sambaço, com uma comunidade coesa e confiante. Estamos seriamente na briga do título do Acesso de 2010. Só dependemos de nós mesmos."

Chegando ao fim do nosso sarau, pedimos para o carnavalesco revelar seus palpites para o Grupo Especial do Rio:

"Ah, se pudesse, colocaria todas, mas sei que algumas estão fortes pra ganhar. A Beija-Flor nunca está fora da lista das candidatas e esse ano não é diferente, ainda coloco o Salgueiro, querendo o bi, a Vila Isabel, linda de Noel Rosa, a Imperatriz, belíssima, com novo gás com Max Lopes e a renovada Mangueira de Ivo Meireles. Mas quem eu realmente queria que ganhasse era a Ilha."

Agora Milton Cunha nos apressa, pois não queremos perder a feijoada da Família Portelense.