A incontestável vitória do Salgueiro em 1963

É indescritível a maneira com que os salgueirenses se lembram do carnaval de 1963. O indiscutível título de 1963. Engraçado que alguns desses torcedores nem eram nascidos na década de 60, mas falam com prioridade acerca do místico desfile salgueirense. Parece que, quando nasceram, a enfermeira injetou-lhes a história dos Acadêmicos do Salgueiro na veia. É assim, como dizia Calça Larga: 'ser salgueirense não é escolha, tá no sangue'. É a magia do Salgueiro.


Toda essa magia estava guardada para encher os olhos da cidade de lágrimas naquele dia 25 de fevereiro de 63 (o desfile era de domingo 24, mas já passavam das 5), e vinha guardada há um tempo. Já em dezembro o Salgueiro era notícia dos informativos culturais, por conta do empate entre dois sambas de qualidade reconhecivelmente superior para levar a escola naquele carnaval. O samba fora decidido com o voto de minerva de Fernando Pamplona, que partiu pra Europa enquanto seu dito envelope era aberto. Pamplona havia escolhido a obra de Anescar e Noel Rosa de Oliveira, e que obra! Bala e Luís Fernando Ribeiro foram os vices, com um samba digno do empate. Assim dizia um trecho do samba vencedor:

E a mulata que era escrava
Sentiu forte transformação,
Trocando o gemido da senzala
Pela fidalguia do salão.
Com a influência e o poder do seu amor,
Que superou
A barreira da cor,
Francisca da Silva
Do cativeiro zombou ôôôôô
ôôô, ôô, ôô.

No dia do desfile, os espectadores puderam ver pela primeira vez as fantasias, que eram praticamente réplicas das vestes de Xica da Silva e estavam, até então, guardadas em segredo pelo carnavalesco Arlindo Rodrigues.



Na Avenida Presidente Vargas o que se via era a vontade de ganhar dos salgueirenses, aliada ao dom de saber fazer carnaval. Nenhum integrante da escola havia engolido o recente ano de 1960, quando dividiram o título com quatro co-irmãs (as ditas cinco grandes que, juntas do Salgueiro, eram o Império Serrano, a Estação Primeira, a Portela e a Unidos da Capela).

Todos estes ingredientes se juntaram ao sol que nascia por trás da Igreja da Candelária (quem já viu uma escola entrar na avenida sob os primeiros raios da manhã sabe identificar a diferença. Os ânimos se revigoram. É como se um novo dia de desfile começasse exclusivamente para aquela escola) e formaram um dos mais importantes episódios para o carnaval carioca: a incontestável vitória do Salgueiro em 1963.

Até que isso acontecesse, ainda houve a já tradicional tensão na abertura dos envelopes que, como em 2009, mostrou a superioridade da Vermelho-e-Branco do Morro do Salgueiro. Os Acadêmicos eram os campeões do ano com 93 pontos.

Como é bom ser Salgueiro. Como é bom nosso sarau.